segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

tato bola (sic)

Nasci em um apartamento. Quando eu tinha ali pelos 6 meses de idade, minha mãe me pegou pelas calças enquanto eu pulava pela janela, depois de escalar o sofá. Devia ser, sei lá, o terceiro andar. Eu não lembro, claro. Minha memória já devia ser horrível... A verdade é que naquela época a mesmice da vida e as paredes já deviam me sufocar e eu já me cansava fácil de tudo o que era estável. Queria ar. Nos mudamos para uma casa e a aventura da minha vida era o jardim. Os tatuzinhos-bola, desses eu me lembro, me ensinavam vez em quando uma lição. Lembro que eu ficava curioso e facinado com eles, não resistia à tentação de tocar, pegar, quiçá uma ou outra vez até comer... E aí eu lembro que quando eu encostava neles eles se fechavam em si, esqueciam o mundo em volta com sua casca rígida pra fora, suas fraquezas pra dentro. Mesmo que o universo fora continuasse a usá-los como um brinquedo de propósito tal que sua fragilidade fosse ignorada. Hoje, algumas décadas depois, eu vejo que às vezes as pessoas, e por vezes eu, faço como o tatuzinho. Ouso, tomo um peteleco da vida, me fecho em mim, mas não me aguento muito tempo, me arrisco de novo, até a vida me dar um novo peteleco e eu me fechar em mim de novo. Eu não me aguento muito tempo dentro de quatro paredes de conceitos, das minhas cascas seguras, dos vínculos de conforto... Eu quero ar.