quarta-feira, 20 de julho de 2011

meta volta

não digo que estou voltando às letras.
mas elas são uns demônios e me tentam muito.

Essa coisa da boca não conseguir falar o que eu sinto.
As letras tampouco, mas um pouco mais.

É como se as palavras fossem como uns mosquitos impegáveis, zombando da minha lentidão. Faz um tempo que decolaram da ponta da minha caneta pra fazer essa algazarra.

E não escrevo mais nem o amor nem a dor. Até porque isso tudo me parece brega, por hora.

Meus amigos distantes.
Minha família distante.
Minha concentração obstante.

Cansa.
Cansa pra chuchu.

E minha mesa parece uma tormenta de papéis, meus controles uma desordem, o tempo um escárnio de mal gosto.

Sorte que tenho um amigo Rei que me salva e uma paixão por qualquer moça que bate como um relógio meio descompassado, que não sabe a hora de fazer clic. Mas quando faz, ah faz... E isso dura o quanto dura uma ilusão pra logo depois cair no silêncio do entresegundos, precedendo um outro clic, sempre imprevisível, meio como estrela cadente: aparece em qualquer lugar, ilumina, arranca suspiro/sorriso/desejo e se apaga.

E até tem uma estrela que fica sempre lá, mas essa aí eu é quem faço força pra apagar. E diria "maldita seja", não me pesasse a conciência por pensar que isso pode lhe trazer algum mal. Um doce, tal estrelinha.

Vamos por aí, vento solar sem estrela do mar, vestido sem cor do céu, cabelo sem girassol.

Tentei sentir o vento de maio, mas maio passou.
Tomara que o próximo trem passe antes do ano que vem, pq Jaçanã é longe e onze horas é tarde demais.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Manuel Bandeira: A CANÇÃO DAS LÁGRIMAS DE PIERROT

Manuel Bandeira: A CANÇÃO DAS LÁGRIMAS DE PIERROT

A CANÇÃO DAS LÁGRIMAS DE PIERROT
I

A sala em espelhos brilha
Com lustres de dez mil velas.
Miríades de rodelas
Multicores - maravilha! -

Torvelhinham no ar que alaga
O cloretilo e se toma
Daquele mesclado aroma
De carnes e de bisnaga.

E rodam mais que confete,
Em farândolas quebradas,
cabeças desassisadas
Por Colombina ou Pierrete


II

Pierrot entra em salto súbito.
Upa! Que força o levanta?
E enquanto a turba se espanta,
Ei-lo se roja em decúbito.

A tez, antes melancólica,
Brilha. A cara careteia.
Canta. Toca. E com tal veia,
com tanta paixão diabólica,

Tanta, que se lhe ensangüentam
Os dedos. Fibra por fibra,
Toda a sua essência vibra
Nas cordas que se arrebentam.


III

Seu alaúde de plátano
Milagre é que não se quebre.
E a sua fronte arde em febre,
Ai dele! e os cuidados matam-no.

Ai dele! e essa alegria,
Aquelas canções, aquele
Surto não é mais, ai dele!
Do que uma imensa ironia.

Fazendo à cantiga louca
Dolorido contracanto,
Por dentro borbulha o pranto
Como outra voz de outra boca:


IV

- "Negaste a pele macia
À minha linda paixão
E irás entregá-la um dia
Aos feios vermes do chão...

"Fiz por ver se te podia
Amolecer - e não pude!
Em vão pela noite fria
Devasto o meu alaúde...

"Minha paz, minha alegria,
Minha coragem, roubaste-mas...
E hoje a minh'alma sombria
É como um poço de lástimas..."


V

Corre após a amada esquiva.
Procura o precário ensejo
De matar o seu desejo
Numa carícia furtiva.

E encontrando-o Colombina,
Se lhe dá, lesta, . socapa,
Em vez de beijo um tapa,
O pobre rosto ilumina-se-lhe!

Ele que estava de rastros,
Pula, e tão alto se eleva,
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!...
Manuel Bandeira